Capa A Chave de Davi

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terça-feira, 1 de outubro de 2019

O Diálogo é possível entre islâmicos e católicos apesar das diferenças teológicas e dogmáticas.

800 anos depois, islâmicos e 

católicos relembram diálogo 

marcante.






PINTURA RETRATA O ENCONTRO ENTRE O SULTÃO DO EGITO AL-MALIK E SÃO FRANCISCO, EM 1219 (REPRODUÇÃO).


Em 1219, São Francisco de Assis e o sultão do Egito al-Malik fizeram um encontro histórico em busca da paz e da harmonia


O início deste ano de 2019 foi marcado por um evento inter-religiosamente importante. O líder da Igreja Católica, Papa Francisco, e o Sheikh da Universidade de Al-azhar, Prof. Dr. Ahmad al-Tayeb, realizaram o Encontro da Fraternidade Humana em Abu Dhabi, Emirados Árabes Unidos, e em consequência disso assinaram o Documento Sobre a Fraternidade Humana em prol da paz e da convivência comum. O documento não se restringiu apenas aos membros das duas comunidades, cujos líderes estavam ali assinando o documento, mas sim a toda humanidade sem nenhuma restrição. Os tópicos principais deste documento tratavam de direitos humanos, liberdade religiosa/fé/crença e sacralidade da vida humana, e condenava-se a barbaridade que das guerras e do terrorismo resulta. Estes, porém, são apenas alguns dos assuntos abordados pelo documento.


Além desta ocorrência histórica, em meio a tantas turbulências e problemas, este ano remete à memória de algum outro marco histórico para ambas as comunidades. Oitocentos anos atrás, o outro Francisco, que hoje é santo da Igreja, em meio às turbulentas batalhas das cruzadas, cruzou as linhas de guerra e foi ao encontro com o sultão do Egito, al-Malik al-Kamil al-Ayoubi, em 1219. A história é marcante, pois homem sedento de paz e de harmonia foi ao encontro do outro que também era sedento da paz e cansado de ver o sangue dos filhos dos outros. Este evento histórico marcou a amizade de um frade católico e um sultão muçulmano. Esta amizade, segundo o cardeal Odilo Pedro Scherer, arcebispo metropolitano de São Paulo, deu a oportunidade de os frades franciscanos até hoje trabalharem no Egito e na região ao redor.


No último sábado, dia 28 de setembro, as entidades islâmicas Federação das Associações Muçulmanas no Brasil (FAMRAS) e União Nacional das Entidades Islâmicas (UNI), e as entidades representativas dos frades franciscanos Conferência da Família Franciscana no Brasil (CFFB) e a Ordem dos Frades Menores (OFM), realizaram o evento em memória do encontro entre o sultão e São Francisco de Assis na Mesquita da Misericórdia, situada na região de Santo Amaro. O evento iniciou-se com a plantação da Árvore da Fraternidade. Nesta ocasião, os líderes religiosos da comunidade islâmica e das entidades franciscanas plantaram uma árvore de ipê desejando que gere muitos frutos de diálogo e da irmandade junto as suas cheirosas flores. Logo depois, passou-se ao Salão Multiuso da Mesquita, onde aconteceram as palestras, mostras artísticas e homenagens aos líderes religiosos que estavam presentes. As palestras foram marcadas com as falas de irmã Cleusa Aparecida Neves, frade César Külkamp e Sheikh Muhammad al-Bukai.


A irmã Cleusa, presidente da CFFB, denunciou a falta do diálogo e o autoritarismo que está crescente. O frei César, provincial da Província Franciscana, usou das palavras de Dom Helder Câmara, afirmando que devemos adotar a humanidade toda por família.á o Sheikh Muhammad al-Bukai afirmou que o ser humano tem tendências à eternidade, mas o que dura eternamente são as nossas ações. Em continuidade de sua fala, o Sheikh afirmou que nas guerras não há vitória, todos perdem. Lembrando do ato de São Francisco e do Sultão al-Malik em busca da paz, ressaltou que este é um ato que durará eternamente. Ao finalizar, faço das palavras deles as minhas e ressalto que o que foi realizado na noite do dia 28 de setembro é uma semente que gerará muitos frutos pela frente. Mas nenhum de nós recolhê-las-á, esta é a parte mais importante do que se faz em prol do diálogo. Desejo que as futuras gerações possam colher os frutos da árvore de irmandade.


Fonte: KUS, Atila, Carta Capital. 1 out. 2019. Diálogos da Fé. 800 anos depois, islâmicos e católicos relembram diálogo marcante. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/800-anos-depois-islamicos-e-catolicos-relembram-dialogo-marcante/ Acesso em: 1 out. 2019. 


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Análise e comentários de Chester M. Pelegrini da matéria.


As religiões nada mais são que tentativas humanas de desvendar os desígnios de Deus, o criador do Universo e estabelecer suas regras de moralidade, civilidade, harmonia e comunidade da humanidade.


Se Deus criou o mundo e está presente em todos nós, suas criaturas, entendemos que logo somos todos irmãos de alma/espírito, além também de sermos irmãos biológicos, como consta as recentes descobertas científicas de que a humanidade ao regredir no estudo dos genes de nossos ancestrais vemos que a família humana realmente se originou de pouquíssimas famílias muito próximo do relato Bíblico da metáfora de Adão e Eva.


Ao longo da história os grandes profetas, tais como Adão, Noé, Abraão (Pai das Fés Abrahamicas), Moisés (Judaísmo), Jesus, (Cristianismo) Maomé, (Islamismo) Bahá´u´u´lláh, Allan Kardec, (Doutrina Espírita) Joseph Smith (Igreja de Jesus Cristo Santo dos Últimos dias), Meishu-Sama (Religião Oriental Igreja Messiânica Mundial) entre diversos mensageiros de Deus e da Luz que veem com a missão de trazer a Luz de Deus para a Terra. 


Engana-se quem pensa que um único mensageiro contém toda a verdade e a luz divinas, várias religiões são portadoras de caminhos igualmente iluminados, para que Deus, sabendo das diferenças de gostos, culturais, aptidões, e diversidade natural de seus filhos tenham todos a mesma oportunidade de seguirem o caminho da luz, que mais se identificarem com a própria evolução espiritual.


Os profetas, mensageiros e líderes espirituais nada mais são que construtores e pedreiros a serviço do Grande Arquiteto do Universo com objetivo de aumentar o nível moral e espiritual do nosso planeta, todos eles formam colunas do Templo da paz e união que é o objetivo primordial da criação divina, que nós, seus filhos vivamos com saúde, paz, prosperidade e união apesar das diferenças.


Não é preciso criar religiões novas, ou sincretismo religioso, acreditamos que os caminhos são diferentes e assim devem permanecer. Judeus continuarão a não aceitar Jesus como messias, nem como uma trindade divina, islâmicos continuarão defendendo que Jesus foi somente um profeta e não Deus encarnado como acreditam os cristãos católicos e outras vertentes. 


Essas diferenças entre os caminhos de fé sempre existirão. O que não deve mais existir no futuro são guerras, perseguições, terrorismo fundados em fés e caminhos diferentes. O ser humano deve preservar a diversidade e as diferenças. Dentro de uma mesma família as vezes há pessoas de diversas religiões, dentro de uma cidade há diferentes bairros com costumes diferentes, em diferentes regiões de um mesmo Estado de um mesmo país há culturas e hábitos radicalmente opostos e valores diferentes.Mas é assim mesmo que tem que ser, vivemos em nações diferentes, nascemos em famílias com acontecimentos, costumes e hábitos diferentes, fazemos amizades e temos colegas de trabalho, clientes, patrões, de diferentes formações acadêmicas, religiões, ponto de vista políticos, hábitos, hobbys, torcem para times diferentes. As vezes até mesmo um casal de homem e mulher tem opiniões radicalmente opostas e nem por isso deixam de se amar. Acreditamos que no futuro, as religiões não irão se unir, as doutrinas não irão se fundir, não haverá ecumenismo apocalíptico, nem sincretismo entre diversas religiões.


Mas pode haver sim a convivência harmoniosa, o respeito mútuo, o diálogo, porque na verdade a sociedade já é assim em vários aspectos, as vezes até fora do Âmbito das religiões. O capitalismo faz com que pessoas de diversas matizes ideológicas colaborem entre si de forma espontânea o que acaba também auxiliando ao diálogo e a manutenção da paz. Minha aposta é que o diálogo entre os líderes das principais religiões irá aumentar, não por uma questão de ser "politicamente correto" por ser "errado o ódio aos diferentes", mas simplesmente porque todos irão aumentar seu nível de entendimento e consciência e vão enxergar a luz no próximo assim como enxergam em si próprios. As religiões devem coexistir, porque são vários caminhos válidos, e complementares assim como as classes de uma escola. Cada profeta veio em um momento histórico nos trazer lições que são complementares umas as outras. 


Há divisões, e é natural que haja mesmo, as religiões se assemelham a galhos das árvores ou mesmo os afluentes de rios, as divisões servem para criarem outros grupos que tenham mais afinidade natural. Deus é perfeito e faria sua obra de forma perfeita. Por isso é inútil a pergunta: "Qual religião é a correta?". Aos que respondem: "Só o meu caminho é iluminado", na verdade precisam estudar ainda mais e aprimorar seu espírito e seu entendimento das coisas imateriais. Todos os grandes caminhos são iluminados, e apenas por ranço e competição religiosa líderes religiosos radicais dizem que só eles próprios possuem a luz verdadeira, utilizando passagens adulteradas das escrituras. Jesus por exemplo nunca deve ter dito que somente "ele é o caminho" só vem a Deus através de "mim". É óbvio que essas passagens foram acrescentadas por líderes religiosos radicais que geraram e ainda geram muita confusão e ódio desnecessário. Da mesma forma que respeitamos nossos familiares que possuem visões diferentes, é muito possível e provável que a humanidade consiga viver em paz, mesmo com pessoas nascendo em países diferentes, tendo culturas diferentes, opiniões e seguindo caminhos de luz diferentes. Essa comemoração do encontro entre São Francisco de Assis e o sultão do Egito são pequenas sementes de paz, que se tornaram com a glória de Deus grandes e frondosas árvores seculares semelhantes as existentes na Amazônia. Frondosas e firmes como está na vontade do Deus Único de Abraão que sustenta e ilumina todos seus diversos ramos.








segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Discurso do Papa Francisco no Encontro Inter-religioso 4 de fevereiro Abu Dhabi



ABU DHABI, 04 Fev. 19 / 01:14 pm (ACI).- O Papa Francisco pronunciou um importante discurso no Encontro Inter-religioso que aconteceu nesta segunda-feira, 4 de fevereiro, em Abu Dhabi, Emirados Árabes Unidos, onde o Santo Padre está em viagem apostólica.
O discurso do Pontífice está destinado a se tornar uma bússola que guiará os passos dados a partir de agora no diálogo inter-religioso.
Francisco fez um chamado à fraternidade entre religiões, a cuidar da família humana e a sustentar uma relação inter-religiosa baseada na educação e na justiça, na qual a oração tenha um papel essencial.
Além disso, o Bispo de Roma voltou a rechaçar com especial firmeza qualquer extremismo religioso e violência exercida em nome de Deus.
“Em nome de Deus Criador, é preciso condenar, decididamente, qualquer forma de violência, porque seria uma grave profanação do Nome de Deus utilizá-Lo para justificar o ódio e a violência contra o irmão. Religiosamente, não há violência que se possa justificar”.
A seguir, o texto completo do discurso pronunciado pelo Papa Francisco: (Discurso completo em português página Vaticano clique aqui)
Al Salamò Alaikum! A paz esteja convosco!
De coração agradeço a Sua Alteza o Xeque Mohammed bin Zayed Al Nahyan e ao Doutor Ahmad Al-Tayyib, Grande Imã de Al-Azhar, pelas suas palavras. Estou grato ao Conselho dos Anciãos pelo encontro que acabamos de ter na Mesquita do Xeque Zayed.
Saúdo cordialmente as Autoridades civis e religiosas e o Corpo Diplomático. Permitam-me também um sincero obrigado pela calorosa recepção que todos reservaram a mim e à nossa delegação.
Agradeço também a todas as pessoas que contribuíram para tornar possível esta viagem e que trabalharam com dedicação, entusiasmo e profissionalismo para este evento: os organizadores, o pessoal do Protocolo, o da Segurança e todos aqueles que, nos «bastidores», de várias maneiras deram a sua contribuição. Um agradecimento particular ao Senhor Mohammed Abdel Salam, ex-conselheiro do Grande Imã.
Daqui, da vossa pátria, dirijo-me a todos os países desta Península, saudando-os cordialmente com respeito e amizade.
De ânimo reconhecido ao Senhor, aproveitei o ensejo do VIII centenário do encontro entre São Francisco de Assis e o sultão al-Malik al-Kamil para vir aqui como crente sedento de paz, como irmão que procura a paz com os irmãos. Desejar a paz, promover a paz, ser instrumentos de paz: para isto, estamos aqui.
O logotipo desta viagem representa uma pomba com um ramo de oliveira. É uma imagem que nos traz à memória a narração do dilúvio primordial, presente em várias tradições religiosas. Segundo a narração bíblica, para preservar a humanidade da destruição, Deus pede a Noé para entrar na arca com a sua família. Hoje também nós, em nome de Deus, para salvaguardar a paz, precisamos de entrar juntos, como uma única família, numa arca que possa sulcar os mares tempestuosos do mundo: a arca de fraternidade.
O ponto de partida é reconhecer que Deus está na origem da única família humana. Criador de tudo e de todos, quer que vivamos como irmãos e irmãs, morando nesta casa comum da criação que Ele nos deu. Funda-se aqui, nas raízes da nossa humanidade comum, a fraternidade como «vocação contida no desígnio criador de Deus». Esta fraternidade diz-nos que todos temos igual dignidade, pelo que ninguém pode ser dono ou escravo dos outros.
Não se pode honrar o Criador sem salvaguardar a sacralidade de cada pessoa e de cada vida humana: cada um é igualmente precioso aos olhos de Deus. Com efeito, Ele não olha a família humana com um olhar de preferência que exclui, mas com um olhar de benevolência que inclui. Por isso, reconhecer os mesmos direitos a todo o ser humano é glorificar o Nome de Deus na terra. Assim, em nome de Deus Criador, é preciso condenar, decididamente, qualquer forma de violência, porque seria uma grave profanação do Nome de Deus utilizá-Lo para justificar o ódio e a violência contra o irmão. Religiosamente, não há violência que se possa justificar.
Inimigo da fraternidade é o individualismo, que se traduz na vontade de eu mesmo e o meu próprio grupo nos sobrepormos aos outros. Trata-se duma insídia que ameaça todos os aspetos da vida, mesmo a mais alta e inata prerrogativa do homem que é a abertura ao transcendente e a religiosidade. A verdadeira religiosidade consiste em amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a si mesmo. Por isso, a conduta religiosa precisa de ser continuamente purificada duma tentação frequente: considerar os outros como inimigos e adversários. Cada credo é chamado a superar o desnível entre amigos e inimigos, assumindo a perspectiva do Céu que abraça os homens sem privilégios nem discriminações.
Desejo, pois, expressar apreço pelo compromisso deste país em tolerar e garantir a liberdade de culto, contrapondo-se ao extremismo e ao ódio. Assim procedendo, ao mesmo tempo que se promove a liberdade fundamental de professar o próprio credo, exigência intrínseca na própria realização do homem, vela-se também para que a religião não seja instrumentalizada e corra o risco de, admitindo violência e terrorismo, se negar a si mesma.
É certo que, «apesar de os irmãos estarem ligados por nascimento e possuírem a mesma natureza e a mesma dignidade, a fraternidade exprime também a multiplicidade e a diferença que existe entre eles». Expressão disso mesmo é a pluralidade religiosa. Neste contexto, a atitude correta não é a uniformidade forçada nem o sincretismo conciliador: o que estamos chamados a fazer como crentes é trabalhar pela igual dignidade de todos em nome do Misericordioso, que nos criou e em cujo Nome se deve buscar a composição dos contrastes e a fraternidade na diversidade. Gostaria, aqui, de reiterar a convicção da Igreja Católica, segundo a qual «não podemos invocar Deus como Pai comum de todos, se nos recusamos a tratar como irmãos alguns homens, criados à sua imagem».
No entanto, várias questões se impõem: Como salvaguardar-nos mutuamente na única família humana? Como alimentar uma fraternidade que não seja teórica, mas se traduza em autêntica união? Como fazer prevalecer a inclusão do outro sobre a exclusão em nome da própria afiliação? Enfim, como podem as religiões ser canais de fraternidade em vez de barreiras de separação?
A família humana e a coragem da alteridade
Se acreditamos na existência da família humana, segue-se daí que a mesma, enquanto tal, deve ser salvaguardada. Como se verifica em cada família, consegue-se isso, antes de mais nada, através dum diálogo diário e efetivo. Isto pressupõe a própria identidade, a que não se deve abdicar para agradar ao outro; mas, ao mesmo tempo, requer a coragem da alteridade, que supõe o pleno reconhecimento do outro e da sua liberdade com o consequente compromisso de me gastar para que os seus direitos fundamentais sejam respeitados sempre, em toda parte e por quem quer que seja. Com efeito, sem liberdade, já não se é filho da família humana, mas escravo. E, dentre as liberdades, gostaria de salientar a liberdade religiosa. Esta não se limita à mera liberdade de culto, mas vê no outro verdadeiramente um irmão, um filho da minha mesma humanidade, que Deus deixa livre e, por conseguinte, nenhuma instituição humana pode forçar, nem mesmo em nome d’Ele.
O diálogo e a oração
A coragem da alteridade é a alma do diálogo, que se baseia na sinceridade de intenções. Com efeito, o diálogo é comprometido pelo fingimento, que aumenta a distância e a suspeita: não se pode proclamar a fraternidade e, depois, agir em sentido oposto. Segundo um escritor moderno, «quem mente a si mesmo e escuta as próprias mentiras, chega ao ponto de já não ser capaz de distinguir a verdade dentro de si mesmo nem ao seu redor e, assim, começa a perder a estima por si mesmo e pelos outros».
Em tudo isto, é indispensável a oração: esta, ao mesmo tempo que encarna a coragem da alteridade em relação a Deus, na sinceridade da intenção, purifica o coração de fechar-se em si mesmo. A oração feita com o coração é um restaurador de fraternidade. Por isso, «quanto ao futuro do diálogo inter-religioso, a primeira coisa que devemos fazer é rezar. E rezar uns pelos outros: somos irmãos! Sem o Senhor, nada é possível; com Ele, tudo se torna possível! Possa a nossa oração – cada um segundo a sua tradição – aderir plenamente à vontade de Deus, o qual deseja que todos os homens se reconheçam irmãos e vivam como tais, formando a grande família humana na harmonia das diversidades».
Não há alternativa: ou construiremos juntos o futuro ou não haverá futuro. De modo particular, as religiões não podem renunciar à tarefa impelente de construir pontes entre os povos e as culturas. Chegou o tempo de as religiões se gastarem mais ativamente, com coragem e ousadia e sem fingimento, por ajudar a família humana a amadurecer a capacidade de reconciliação, a visão de esperança e os itinerários concretos de paz.
A educação e a justiça
E voltamos, assim, à imagem inicial da pomba da paz. Também a paz, para levantar voo, precisa de asas que a sustentem: as asas da educação e da justiça. A educação – educere, em latim, significa extrair, tirar fora – é trazer à luz os preciosos recursos da alma. É consolador verificar como, neste país, não se investe apenas na extração dos recursos da terra, mas também nos recursos do coração, na educação dos jovens. É um compromisso que almejo possa continuar e difundir-se por outros lados. A própria educação tem lugar na relação, na reciprocidade. À famosa máxima antiga «conhece-te a ti mesmo», devemos juntar «conhece o irmão»: a sua história, a sua cultura e a sua fé, porque, sem o outro, não há verdadeiro conhecimento de si mesmo. Como homens e mais ainda como irmãos, lembremos uns aos outros que nada do que é humano nos pode ficar alheio. Em ordem ao futuro, é importante formar identidades abertas, capazes de vencer a tentação de se fechar em si mesmas e empedernir-se.
Investir na cultura favorece a diminuição do ódio e o aumento da civilidade e prosperidade. Educação e violência são inversamente proporcionais. As instituições católicas – apreciadas também neste país e na região – promovem tal educação para a paz e compreensão mútua para prevenir a violência.
Cercados frequentemente por mensagens negativas e notícias falsas, os jovens precisam de aprender a não ceder às seduções do materialismo, do ódio e dos preconceitos, a reagir à injustiça e também às experiências dolorosas do passado e a defender os direitos dos outros com o mesmo vigor com que defendem os próprios. Um dia, serão eles a julgar-nos: bem, se lhes tivermos dado bases sólidas para criar novos encontros de civilidade; mal, se lhes tivermos deixado apenas miragens e a desoladora perspectiva de nefastos conflitos de incivilidade.
A justiça é a segunda asa da paz; com frequência, esta não é comprometida por episódios individuais, mas é lentamente devorada pelo câncer da injustiça.
Portanto, não se pode crer em Deus sem procurar viver a justiça com todos, como diz a regra de ouro: «O que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles, porque isto é a Lei e os Profetas» (Mt 7, 12).
Paz e justiça são inseparáveis! Diz o profeta Isaías: «A paz será obra da justiça» (32, 17). A paz morre, quando se divorcia da justiça, mas a justiça revela-se falsa se não for universal. Uma justiça circunscrita apenas aos familiares, aos compatriotas, aos crentes da mesma fé é uma justiça claudicante… uma injustiça disfarçada!
As religiões têm também a tarefa de lembrar que a ganância do lucro torna néscio o coração e que as leis do mercado atual, ao exigir tudo e súbito, não ajudam o encontro, o diálogo, a família: dimensões essenciais da vida que precisam de tempo e paciência. Que as religiões sejam voz dos últimos – estes não são estatísticas, mas irmãos – e estejam da parte dos pobres; velem como sentinelas de fraternidade na noite dos conflitos, sejam apelos diligentes à humanidade para que não feche os olhos perante as injustiças e nunca se resigne com os dramas sem conta no mundo.
O deserto que floresce
Depois de ter falado da fraternidade como arca de paz, gostaria agora de me inspirar numa segunda imagem: o deserto, que nos envolve.
Aqui, com clarividência e sabedoria, em poucos anos o deserto foi transformado num lugar próspero e hospitaleiro; de obstáculo impérvio e inacessível que era, o deserto tornou-se lugar de encontro entre culturas e religiões. Aqui o deserto floresceu, não apenas durante alguns dias no ano, mas para muitos anos vindouros. Este país, em que se tocam areia e arranha-céus, continua a ser uma importante encruzilhada entre o Ocidente e o Oriente, entre o Norte e o Sul do planeta, um lugar de desenvolvimento, onde espaços outrora inóspitos proporcionam empregos a pessoas de várias nações.
Mas o desenvolvimento também tem os seus adversários. E, se o inimigo da fraternidade é o individualismo, como obstáculo ao desenvolvimento apontaria a indiferença, que acaba por converter as realidades florescentes em zonas desertas. De fato, um desenvolvimento puramente utilitarista não gera progresso real e duradouro. Só um desenvolvimento integral e coeso prepara um futuro digno do homem. A indiferença impede de ver a comunidade humana para além dos lucros, e ver o irmão para além do trabalho que faz. Com efeito, a indiferença não olha para o amanhã; não se importa com o futuro da criação, não cuida da dignidade do forasteiro nem do futuro das crianças.
Neste contexto, alegro-me com o fato de se ter realizado precisamente aqui em Abu Dhabi, em novembro passado, o primeiro Fórum da Aliança inter-religiosa por Comunidades mais seguras, dedicado ao tema da dignidade da criança na era digital. Este evento retomou a mensagem lançada um ano antes, em Roma, no Congresso internacional sobre o mesmo tema, ao qual dei todo o meu apoio e encorajamento. Agradeço, pois, a todos os líderes que estão empenhados neste campo e asseguro o apoio, a solidariedade e a participação da Igreja Católica nesta causa importantíssima da proteção dos menores em todas as suas expressões.
Aqui, no deserto, abriu-se um caminho de fecundo desenvolvimento que, a partir do trabalho, dá esperança a muitas pessoas de vários povos, culturas e credos. E, entre elas, contam-se também muitos cristãos, cuja presença na região remonta séculos atrás tendo contribuído significativamente para o crescimento e bem-estar do país. Além das próprias capacidades profissionais, trazem-vos a genuinidade da sua fé. O respeito e a tolerância que encontram, bem como os necessários lugares de culto onde rezam, permitem-lhes aquele amadurecimento espiritual que se traduz em benefício para a sociedade inteira. Encorajo-vos a continuar por este caminho, para que quantos vivem aqui ou estão de passagem conservem a imagem não só das grandes obras erguidas no deserto, mas também duma nação que inclui e abraça a todos.
É com este espírito que almejo, não só aqui mas em toda a amada e nevrálgica região do Médio Oriente, oportunidades concretas de encontro: sociedades onde pessoas de diferentes religiões tenham o mesmo direito de cidadania e onde só à violência, em todas as suas formas, se tire tal direito.
Uma convivência fraterna, fundada na educação e na justiça, e um desenvolvimento humano, construído sobre a inclusão acolhedora e sobre os direitos de todos, constituem sementes de paz, que as religiões são chamadas a fazer germinar. Cabe a elas neste delicado momento histórico, talvez como nunca antes, uma tarefa que não se pode adiar mais: contribuir ativamente para desmilitarizar o coração do homem. A corrida aos armamentos, o alargamento das respectivas zonas de influência, as políticas agressivas em detrimento dos outros nunca trarão estabilidade. A guerra nada mais pode criar senão miséria; as armas nada mais, senão morte!
A fraternidade humana impõe-nos, a nós representantes das religiões, o dever de banir toda a nuance de aprovação da palavra guerra. Restituamo-la à sua miserável crueza. Estão sob os nossos olhos as suas consequências nefastas. Penso em particular no Iêmen, na Síria, no Iraque e na Líbia. Juntos, irmãos na única família humana querida por Deus, comprometamo-nos contra a lógica da força armada, contra a monetarização das relações, o armamento das fronteiras, o levantamento de muros, o amordaçamento dos pobres; oponhamos a tudo isto a força suave da oração e o empenho diário no diálogo. Que o nosso estar juntos hoje seja uma mensagem de confiança, um encorajamento a todos os homens de boa vontade para que não se rendam aos dilúvios da violência nem à desertificação do altruísmo. Deus está com o homem que procura a paz. E, do céu, abençoa cada passo que se realiza, neste caminho, sobre a terra.

Fonte: ACIDigital (Clique Aqui para ver o artigo original).

      Vídeo Canal Chester News comentando o discurso do Papa Francisco sobre a paz entre religiões